Ilhavo, Ilhavo, Ilhavo

Hoje andei por Ílhavo. A quantidade de semáforos revoltados com a minha presença na via pública. Revoltados porque todos eles tiveram o discernimento de me mostrar a face encarnada. Três desses malvados deveriam ir para o desemprego. Não estão lá a fazer rigorosamente nada. Parecem-se como aqueles funcionários públicos que nos atendem como por exemplo nas finanças com grande "cara de frete".

Gostava de ter um Gadget (gíria tecnológica recente que se refere a, genericamente, um equipamento que tem um propósito e uma função específica, prática e útil no coitidiano - leia-se que é de coitado e não coito) que pudesse alternar as cores desses ditos funcionários. À medida que passava, carregava num butone e pimba, verde para mim.

Este fim de semana tivemos o Aliabum. Deu luta mas não chegou. Perdeu com o glorioso lá das Lisboas. Menos mal.

Até logo

Venham cá roubar este!...

Segundo reza a lenda, roubaram-nos um candeeiro valiosíssimo, fingindo que iam mudar as lâmpadas.
Se quiserem voltar a repetir a proeza, desta vez não nos roubam a dignidade!

Ex-comerciantes certificados 1

Leu-se no Ilhavense que a CMI se congratula por entregar certificados de cursos EFA, talvez seja tempo de certificar os comerciantes desempregados, que tanto fizeram e/ou tentaram fazer pela nossa comunidade.

Não se admite que não se faça nada pelo comércio tradicional ilhavense.

Ílhavo é um deserto comercial.

E já que ninguém se interessa pelo comércio da terra, talvez a CMI deva investir numa forte rede de transportes públicos para Aveiro. Já agora peçam ajudas de custo a Aveiro, uma vez que é lá que vamos gastar os nossos euros. Assim, a CMI pode construir mais monos no centro de Ílhavo...

Hino de Ílhavo

O hino dos hinos!

Lindo!

Bacalhau II

Bacalhau à Portuguesa

Dividir o bacalhau fresco em postas de 250 grs.; temperá-las com sal e pimenta.


Dispô-las numa caçarola de saltear, contendo (para cinco postas) 100 grs. de manteiga, 1 dl. de azeite, 100 grs. de cebola picada e refogada em manteiga, um pequeno dente de alho esmagado, duas pitadas de salsa migada, 750 grs. de tomates migados e sem sementes, 100 grs. de arroz, cozido em três quartos de água salgada e 2 dls. de vinho branco; cobrir a caçarola; pôr sobre lume vivo a cozer durante dez minutos sem destapar.

Passado este tempo, destapar a caçarola para fazer a redução, que deve estar pronta sempre ao mesmo tempo que o peixe, cuja cozedura completa exige dezoito minutos.

Dispor o peixe numa travessa e cobri-lo com o molho e a guarnição.

Bacalhau I

"Bacalhau é o nome comum para os peixes do gênero Gadus, pertencente à familia Gadidae. A origem do vocábulo designativo ainda é pouco clara. Talvez assente nas formas franceses cab(e)liau ou cabillaud, por meio da metátese das sílabas iniciais, tendo estas, por seu turno, origem possivelmente na língua neerlandesa kabeljaauw.

Atualmente, este peixe encontra-se em vias de extinção (à conta do Rui Costa), incluido em 2000 pelo WWF (World Wide Fund for Nature), na lista de espécies ameaçadas.

Existe um relatório publicado que informa que a captura de bacalhau diminuiu em 70% nos últimos 30 anos, devido a dificuldade de encontrá-lo nos oceanos, alertando que se essa tendência continuasse, os stocks mundiais de bacalhau poderiam desaparecer dentro de 15 anos." in wikipédia

Dicionário Ilhaboto: letra B

Bacia - Prato grande e fundo usado para dele comerem várias pessoas, geralmente da mesma família

Badalhoca - Mulher pouco cuidada com a sua pessoa e com o maneio da sua casa

Balbucha ou Baubucha - Chinela

Balcória - Mulher desmazelada, mulher de baixa moral

Balreiro ou Baurreiro - Barulhento, palrador, que fala muito alto

Banguina - Hipócrita, beata falsa

Barca - Embarcação de fundo chato e de boca aberta. Em particular, as embarcações que fazem o
transporte de pessoas entre a Costa Nova e a Gafanha

Bardal ou Bardau - Toleirão

Barréga - Pessoa que grita muito, que faz muito barulho

Bazaruco - Bacalhau grande

Bechoiro - Berlinde ou pequeno seixo redondo que pode servir o mesmo fim

Beleira - Pessoa que anda sempre passeio, criança da rua

Belisomem - Lobisomem

Bergalhau - Cascalho ou areia grossa no fundo do mar ou de um rio

Bessadas - Terrenos alagadiços

Bilharaco - Pastel doce feito de massa de abóbora, característico da ementa do Natal (Preferido da malta desta blogilhaveira)

Bisã - Aparição estranha, fantasma

Bóça - Cabo com que se prende o dóri. AmarraçãoBoqueirão - O mesmo que «biqueirão» (peixe)

Bóquilha - Badalhoca

Boseiro - Montículo de excremento

Bosteiro - Aquele que recolhe excrementos de animais pelas ruas da vila para usar como estrume

Botadinho à boa parte - Idiota

Botar - Colocar

Brinco - Anel de arame que se aplica no focinho dos porcos para os dissuadir de fossarem

Brisa - Vento forte no mar

Brunir - Passar a roupa a ferro

Buiz - Coisa pequena e fraca, termo usado para inferiorizar alguém

Buzelingum - Pirilampo

Dicionário Ilhaboto: letra A

Abego - Aviamento

Abuzacar-se - Sentar-se

Acachapar-se - Sentar-se, geralmente denotando preguiça

Adonde - Onde, aonde

Agarrei em mim - Expressão com o significado de "tomei a resolução de..."

Afeito - Habituado

Afoito - Destemido

Agra - Campo à volta da vila

Agueiro ou Augueiro - Corrente marítima ou fluvial de pequena intensidade e bem localizada

Aido - Quintal

Alborada - Fora de si, aflita

Alcabuzar ou Aucabuzar - Ralar a paciência de alguém

Alcatroeiro ou Aucatroeiro - Pessoa mal educada

Aleiva - Torrão de lodo tirado por um golpe de enxada e que serve para construir, no próprio local um murete de protecção

Alfebruche ou Aufebruche - Selha usada a bordo dos navios bacalhoeiros para manusear o sal

Alforjada - Coisa que se leva escondida

Amesendar-se - Sentar-se à mesa para uma lauta refeição

Amno - Ânimo

Amode - Contracção de «a modos que»

Amolatar - Amolgar

Andar ao alto - Andar sem trabalho ou qualquer ocupação

Andar ao cachapé - Andar ao "pé coxinho"

Andar ao malmaínço - Andar à toa, andar à desgarrada

Andar à rola - Andar à deriva. Diz-se de uma embarcação que se solta da amarração

Andar para comprar - Estar grávida

Andar com a borda debaixo de água - Atravessar grandes dificuldades monetárias ou outras

Andar de altos para pandulhos - Andar numa roda-viva, andar sem descanso

Ao de labaró - Levemente sem pressionar

Ao rossaló - Sem rumo certo

Apajar - Fazer companhia, tratar alguém com deferência interesseira

Apanhar coinha - Castigo num jogo de rua que consiste em fazer o jogador punido deitar-se de costas sobre um objecto pontiagudo (geralmente um caco)

Aperriado - Apertado (para ir ao WC). Também se usa com o significado de "muito preocupado"

Ardido - Fermentado ou azedo, referindo-se a comidas

Arrelampar - Sentar-se, vencido pelo calor ou cansaço

Arriar - Sair para a pesca do bacalhau num dóri. "Moço de arriar": aquele que já pode ir pescar quando o mar não oferece perigo e o capitão assim o entende.
"Arriar a amarra": defecar. Desistir

Arrolaçado - Deitado no chão, sem cuidados ou propósitos

Arrolar - Dar à costa ( como os restos de um naufrágio)

Arrolar-se - ver arrelampar

Arrunhar - Ruir, desmoronar-se

Artas com ele! - "Arre com ele!". A expressão pode provir da decisão de mandar para as "artes de pesca" um rapaz sem jeito para os estudos ou para qualquer outra profissão

Atafegar - Ter falta de ar ou dificuldade em respirar. Esganar

Atarramacar - Acabar qualquer coisa à pressa

Atilada - Ajuizada, arranjada

Atiradeira - Fisga de atirar pedras

Atirar à mangalhota - Atirar uma pedra a outro objecto sem cuidado ou pontaria

Atrigar-se - Ousar, atrever-se

Aubaiois - Roupa de trabalho com um peitilho quadrado e alças cruzadas atrás, que se zeste sobre outra roupa, para a proteger

O ROUBO DA LÂMPADA DE ÍLHAVO - versão Bora te Beio

Como todas as terras, Ílhavo não foge à regra e também tem a sua história, embora esta seja de chacota e sempre que um ilhavense diz de onde é, pronto, lá vem o dito:

– Ah... és da terra da lâmpada!

Por vezes custa a engolir, mas como já estamos habituados, tudo bem, tudo numa boa.

Tudo isto se passou devido a uma aposta, em como eram capazes de roubar a lâmpada e com muita gente a assistir.


Nada melhor, do que escolher a altura da missa, para o fazer e assim ganhariam a aposta. Os amigos da onça, armados de escada e balde, mais uns acessórios à maneira e eis que aproveitaram a missa estar a “Santos”, para o fazer.

O senhor padre, vendo o que se estava a passar, pensou: – Até que enfim que o sacristão mandou limpar a lâmpada!

O sacristão perante o cenário, pensou o mesmo!

– Quem te há-de limpar por semelhante preço? – dizia um dos amigos da onça.

Por brincadeira ou não, e não havendo viva alma que possa confirmar ou desmentir esta caricata história, sem que inúmeras vezes, e a título de brincadeira se diga que o velho castiçal de prata “lâmpada” foi limpa bem limpa, e que neste momento se encontra nos Estados Unidos da América do Norte, guardada pelos descendentes de emigrantes portugueses.

Verdade ou mentira, Ílhavo continuará a ser a terra da lâmpada... Por muitos e muitos anos!...


Eduardo Nunes
(in Bora Te Beio)

Ílhavo II

“Ílhavo é, incontestavelmente, uma derivante de Avia, como se torna evidente pela decomposição morfológica do seu étimo medieval, que em latim era Illiabum. Um notável etimólogo francês, o Prof. Albert Dauzat demonstrou com eficiência que o profixo Illi (ou Ili), junto a certos topónimos, tem a significação de Vila, e entre outros exemplos, cita o de Illi-Berris que traduzido é Vila Nova.

Fundamentando-nos sobre as conclusões a que chegámos quando explicamos a etimologia de Aviarium, a agora ainda mais corroborada fica, se juntarmos Illi a Avia, não teremos formado o composto Ílliavia, que nas eras medievais se grafava “Illiabum”, “Illiavo” e “Iliavo”, donde, pela evolução natural, proveio o actual topónimo Ílhavo ?

Por consequência, sendo Avia o vocábulo latino por que a Ria se designa, como vimos quando o estudámos, Ílhavo fica lógica e concludentemente significando a Vila da Ria”.

(Das Notas Toponímicas, de João Oliveira Coelho (1953)

Ílhavo I

“Adverte-se que o nome Ílhavo se deve pronunciar esdrúxulo, isto é, com acento na primeira, e não na penúltima sílaba como alguns menos advertidos na corte, e outros lugares distantes erradamente pronunciam. Quanto à etimologia do nome Ílhavo, pouca atenção merece a notícia que agora, sucintamente daremos. Um célebre Domingos da Cruz, sacristão que foi da Matriz que se gastava bom humor fleumático, costumava e a próprio cérebro, formar, e fingir etimologias dos nomes das terras, e chegando a Ílhavo dizia ele que a origem e razão de assim se chamar fora, porque sendo “Chousa Velha” (lugar vizinho), povoação mais antiga era nesse tempo Ílhavo, ilha ou terra apaulada e pantanosa e que na tal ilha ou paul criavam muitas aves ou ades e costumavam os moradores da Chousa Velha ir tirar-lhes os ovos. Sucedia, pois, que uma velha costumava ir com um neto que tinha a mesma diligência, e que quando se descuidava, o neto acostumado àquela guloseima lhe lembrava: “Vamos à Ilha, avó” e que daqui, corrupto vocábulo ficara Ílhavo”.

(Das memórias Paroquiais de 1758, publicado em “O Arqueólogo Português” de 1898)

De onde vens tu, oh vila de Ílhavo?...

Fundada pelos gregos. É sem dúvida, uma povoação muito antiga, anterior à Nacionalidade. Recebeu o primeiro foral de D.Dinis em 1296, renovado por D. Manuel I em 1514.

É corrente que a sua fundação se deve aos fenícios. E curioso é notar que, até há poucas décadas, os habitantes de Ílhavo constituíam como que um clã à parte, em que o próprio sotaque se diferenciava do de todas as outras povoações vizinhas. Ainda hoje, quando alguém é muito falador ou usa expressões pouco vulgares, se costuma dizer: “É de Ílhavo” !”. Nos séculos Xl e seguinte são correntes as referências (Ílhavo, Ilavum, Illiabum). Em 1514, recebeu foral manuelino, contando a população cerca de 520 habitantes. É no reinado de D. Manuel 1º que a jurisdição da vila passa à posse dos Borges, do senhorio de Carvalhais, cujo paço ficava na Moita.

O sal juntamente com a pesca, a grande atracção; depois a navegação costeira e a pesca nos mares distantes, o comércio marítimo e o arroteamento das terras deram maior corpo ao agregado urbano.

"A Lenda da Terra da Lâmpada"

Há muitos... muitos anos, tantos que já ninguém o sabe ao certo quando, «aconteceu» em Ílhavo uma história que virou lenda.

Era uma vez... uma Terra que em menina foi surrada pelo mar que lhe sucumbia aos pés e que depois, já crescida, viu aquele amainar aprisionado pelos braços da sereia lagunar: logo logrou escapulir-se, obrigando as suas gentes, pescadores da borda, a atravessar o prado já então a revessar de verde que se estendia, qual tapete macio, para os levar à Costa Nova em demanda da sardinha, que, diziam, tal como a mulher, se quer rechonchuda e pequenina. Como todo o «gentio» do mar, pescadores ou mareantes, sempre os «ílhavos» foram mais tementes a Deus que a esse «cão» danado - o mar! - que por vezes amuado de tanta ousadia, enraivado, ronrona ameaçador em ondas
espúmeas ao embater contra os frágeis barquitos em que aqueles ganham o pão para os seus.

Era nesses momentos dantescos que o arrais Ançã lhe gritava: «Ah!... danado, se fosses d'aguardente bebia-te só de um trago!».

E logo o mar parecendo amedrontado com o desafio do arrais gigante, alquebrava e, às arrecuas, tolhido, desembestava a tramontana, serenando. Mas com Deus não se brinca, ou ofende, e os «ílhavos», criaturas de fé devota, muito embora confiassem nos «seus arrais» - que não havia outros de tal «igualha» por essa costa abaixo -, quando chegados os momentos de aflição, faziam as suas promessas ao S. Pedro, orago da sua devoção, que na Igreja da santa terrinha, no altar, atento, velava pelas suas vidas. Acreditavam. Apesar da Vila ser, naqueles tempos, idos, aconchegada e pequena, era escufenada, tendo já desde os nossos primeiros Reis uma igreja REAL, vistosa e imponente, que lhe conferia merecido destaque. Os pescadores e famílias, principalmente o «mulherio», eram gentio muito religioso, comparecendo diariamente á missa pelas matinas, levando consigo uma esmola que entregavam às Almas para protecção dos seus. Esta Igreja desde muito cedo passou a ser das mais importantes e mais ricas de toda a região de Aveiro, exibindo valiosas imagens de Santos de terracota, adornada de ricas alfaias de ourivesaria, muito faladas e, por isso, também, muito cobiçadas.

De tal modo que aquando das invasões Franceses, os soldados do General Junot a esbulharam das suas riquezas para assim recomporem o seu cofre depauperado.
Conta-se, então, que só uma rica Custódia de ouro - que hoje ainda existe – e uma valiosíssima Lâmpada (vistoso e artístico candeeiro de prata que descia do tecto alumiando bruxeleante a capela do Santíssimo) se salvaram, porque um tal Malaquias - O Raposo -, antecipando-se à soldadesca francesa, as encapotou na batina, levando-as consigo e as enterrou. Só passados muitos anos, vendo que o perigo tinha então já passado, resolveu desenterrá-las para as entregar ao Prior, que, muito agradecido pela esperteza do acólito, logo mandou preparar grande festa para celebrar o
acontecimento do retorno das valiosas peças, festa com direito a pregão prodigamente trombeteado pelos párocos das redondezas, que do alto dos seus púlpitos prometiam foguetório de arromba, procissão solene que fosse testemunha da virtude da hora e a que não faltaria o ignito dominicário frei Elias, cuja voz tonante faria ribombar os Evangelhos mailas ameaças da Santa Inquisição alevantando abundosas tremuras em todos aqueles, que pecando, tresmalhados,andariam mais perto de trambolhão no caldeiro onde frigiam as almas penadas, do que no azul celeste do paraíso –
promessa habitual do sermonário - por onde ricos e pobres se passeiam -, irmanados na dádiva de graças ao altíssimo. Vá-se lá acreditar. Mas nestas coisas do alto mais vale precaver, do que ver. Tanto alvoroço faria acorrer à Vila gentiaga estranja para render tributo aos tesouros que voltavam a arejo, para regalo dos fiéis crentes, aboletados por toda a vila em palheiro de compadre, de amigo ou de simples conhecido, tudo gente de boa crença e fulanagem. Andara o povo em grande folgança, a doidejar havia já três dias, com visita obrigatória à esprândiga Igreja que aperaltada com vestes de gala mostrava, envaidada, as relíquias a quantos as quisessem admirar, um ror de gente.

No final da festarola, era já segunda feira, dia para estas gentes voltarem à labuta diária depois de reconfortados com a missa da madrugada, ainda os galos cucuritavam nos poleiros, na Igreja restavam abusacadas apenas algumas beatas que ouvida a missa, ali ficaram a fazer as suas rezas - e assim palrando - esperavam pela missa seguinte, da manhã; que «duas sempre reconfortavam mais do que uma só».
Como eram mulheres de palanfrório, daquelas que todas as tardinhas vinham ao «rebate» contar as «últimas», aproveitavam aqueles momentos para pôr a conversa em dia, pois que a festança as afastara daquele convívio diário da má língua, onde as bocas baladeiras falavam «disto e daquilo... desta ou daquela – de toda a gente do sitio !-, pois que o tempo dava para isso; era tanto que ainda crescia para rezar um pai nosso e três avé marias».

- Oi.. chopa! - olha para quem entrou... – disse às tantas a Maria Calatró da Malhada, interrompendo a conversa, acto contínuo virando-se para a Josefa do Arnal que ali estava engrunhada, encapuchada no xaile de burel que lhe cobria a cabeça como se o frio da manhã a tivesse entorpecido, ao tempo em que indicava dois indivíduos que,de escada na mão, com umas cordas aos ombros, tinham entrado na Igreja onde ainda, apenas a luz mortiça das velas e as das lamparinas da majestosa
Lâmpada, quebravam o negrume. Tinham parado debaixo da mesma assumindo um ar de
consternação e espanto, dizendo em voz alta um para o outro, de modo a que as «beatas» ouvissem:

- Ora vai-te... que raio de negócio fizemos... Quem é que a há-de limpar por semelhante preço?!... dizia... o mais baixote, parecendo arrependido com o negócio. Logo responde o outro:

- Bem... já que justamos o preço, agora não há nada a fazer... Toca a baixá-la que se faz tarde... diz o outro, homem de barba cerrada, de aspeito desconfiado, olhar de aspe decidida a saltar sobre a presa ou fugir lesta, se inimigo se abeirasse.
E se melhor o disse, mais rápido o fez: pondo mãos à obra subiu a escada e arriou a Lâmpada perante os olhares assarapolhados da Josefa e amigas, logo a metendo num saco e saindo tranquilamente da igreja, de escada às costas... sobraçando ao ombro o saco onde restava a «lâmpada».

- Estais a ver... «chopas», como o Senhor prior manda tratar das coisas da Igreja para esta luzir?!... diz a Josefa Carqueja para a Calatró.... E e agora inda hás-de dizer que o «home» é um mancatufe que nem prás novenas serve. És uma mal «dizente» ...raios! - que ainda hás-de ir «estorricar» no
fundão do inferno... «morrendas se não falendas» –VADE RETRO SATANÁS.

Tocadas as sete badaladas da manhã, o Prior lá veio com o sacristão para rezar a segunda missa do dia. Vinha ofegante o abade, face espaçosa onde ressaiam as bochechas avermelhadas que uns diziam ser do afã do ministério, mas que outras, maldosas, diziam ser fruto das barrigadas das caçoilas do carneiro avinhado; ou de se alambazar - à farta! – com a chispalhada que servia de lastro às enguias
de escabeche, tudo regado por tinto farto vindo lá das bairradas, que lhe provocava aziumados borbotões. O cabeção, manchado pelas manápulas pouco asseadas que tentavam aliviar o nó de enforcado, inchava-lhe o pescoço, exsudando-lhe os refegos do pescoço que serviam de caneja para o suor que escorria para a sebada sotaina ruça.
É então que a Calatró, alvoroçada e já desconfiada de tanto cuidado do prior, pois no seu entender "não era «arrais" p'ra tão grande barca", lhe salta ao caminho e diz:

- "oh!... senhor Abade... tanta pressa para quê(?!) santo Deus..., a limpeza podia esperar mais um «poiquinho» e acabar-se a festa com a nossa lâmpada, cá!...

- que limpeza estás tu a dizer?..., oh mulher!... e de que Lâmpada... está para aí a falar?! resfolga o padre João dos Mártires.

- A que o senhor Prior mandou «alimpar» - «hom' essa»! - que estes olhos que o chão hão-de comer, viu ali... e «q'uinda» agora a levaram, a mando de V. Reverência» ...responde a Calatró apontando para o tecto vazio da igreja.

E foi então que o Prior olhou para o sitio onde era suposto estar a Lâmpada e, vendo-o vazio, de olhos esbugalhados, gritou:

- Ah! Ladrões. Ah cães que me roubaram... grita o aporrinhado abade, vermelho como um «pilado da praia» logo se «arriando» das pernas»,caindo para o lado... a bufar em apoplético estertor.

- Ide depressa buscar «auga» da benta... que o pobre homem vai-se... grita a Luísa dos Sete Carris para as restantes, ao tempo em que amparava o desfalecido Abade nos seus braços de «pimpona pescadeira».

- Que vá... «olhendas»!... é como a Lâmpada, «assome-se» que é um ar que lhe deu... logo diz a Calatró que não perdoava ao Prior tê-la um dia mandado para casa onde, disse, "tinha mais que fazer que estar ali sentada no rebate da Igreja à espera da missa da madrugada"... E logo a Calatró, acrescenta:

-q'uinté» tenho mais pena da Lâmpada que do «corvo» que não faz falta aos filhos, que os não tem, referindo-se ao pobre abade que, pouco a pouco, depois de «rebaptizado» pela Josefa, começava a dar acordo de si. Uns gorgolhões de cachaça que o sacrista tinha ido, lesto, buscar ao passal, acabaram por recompor o pobre diabo.

- Ai!... filhas... diz a Luísa... desta vez nem o Raposo nos vale!!!

Em Ílhavo,durante três dias, os sinos dobraram a finados por ordem do Prior João dos Mártires. tantos... quantos os da festa.

A Lâmpada – essa - levada pelos larápios, levou um sumiço... Até hoje.

Já sabes: quando quiseres fazer corar de vergonha um «ílhavo», basta dizeres:

- «T'imbora» homem... que és da Terra da Lâmpada...»

Mas olha!... segue um conselho: - foge da terra, não te vá acontecer ficares pendurado na borda... que a um «ílhavo» desembolado, nem o campino de «Garret», habituado a suster os cornigeos brutos, consegue «fazer peito»...

Texto "cedido gentilmente" por S.F.